COMER É BOM E EU GOSTO


capona Boca feliz Inhame Inhame 
Por Sônia Hirsch

Ninguém precisa ser naturalista para melhorar a
alimentação. Mas, afinal, o que é um naturalista?
Antigamente chamavam assim as pessoas que iam
viver nas ilhas: todo mundo morando no mato pelado,
comendo fruta, observando passarinho e convivendo com
as cobras numa boa. Mas essa moda não pegou,
e naturalista passou a ser quem come comida natural.
E o que é comida natural? Existe alguma comida que
não seja natural?
De uma forma ou de outra, tudo é tirado da natureza.
Até o plástico, que vem do petróleo, que por sua vez
vem do centro da terra, pode ser considerado natural.
Mas o plástico não se desmancha de novo. Não é como
a madeira, a casca de banana ou o corpo de pessoas
e animais, que vieram do pó e ao pó voltarão. Podem
se passar 100 anos e o plástico ainda estará do mesmo
jeito. Algumas comidas são como o plástico — não se
desmancham dentro do corpo, não se misturam com a
nossa natureza de uma forma normal nem nutrem a vida.
Aqui e ali começam a aparecer os montinhos de lixo que a
gente comeu, no sangue, nas juntas, nas células. Em volta
deles vão se instalando bactérias, vermes, fungos, e dali
a pouco tudo já virou bagunça, isto é: doença. Ou seja:
certas comidas agridem a nossa natureza, enquanto outras
se integram ao nosso corpo de uma forma completamente
natural. Por isso é que se diz comida natural.
Por exemplo, a dona Maria, lá daquele lugarejo do sul
de Minas, come comida natural. O feijão vem da roça
do Bento, o arroz quem traz é dona Fujiko, o milho e o
aipim e as verduras são ali do quintal mesmo e as frutas
aparecem conforme Deus vai dando: banana, laranja,
tangerina, jaca, mamão, jabuticaba, abacate, cada qual
na sua estação. Os ovos também são do quintal, postos
todo dia pelas galinhas que têm até nome. E se acontece
de comer um frango, um leitão, um cabrito ou uma
carne de vaca, todo mundo sabe que o animal era sadio
e bem tratado.
Dona Maria tem uma saúde de ferro.
Muito longe de Minas, lá nas bandas do Maranhão,
seu Ribamar também come comida natural: é um peixe,
uma caça, um milho, uma farinha de mandioca, um
óleo de coco babaçu, umas folhas de vinagreira cozidas
só no bafo da panela, castanha-do-brasil, banana, coco
e todas as frutas que Deus também dá por lá.
Seu Ribamar é outro que tem saúde de ferro.
Agora: o filho da dona Maria e a filha do seu Ribamar,
que foram atrás de outra vida na cidade grande e
casaram, não comem comida natural. Porque na
cidade quase nada é colhido ou criado, tudo pode ser
comprado no supermercado, enlatado, empacotado,
congelado, superconservado, já vem preparado, já vem
temperado, já vem salgado e adoçado que é pro freguês
ficar bem acostumado... Então eles comem é muito pão,
salsicha, salgadinho, macarrão, fritura, doce, biscoito
recheado, bolo, refrigerante. Sabem que não é uma
comida decente, mas vão comendo assim mesmo.
A saúde deles é fraca. Sentem dor de cabeça, acordam
cansados, se irritam com facilidade, volta e meia estão
com gripe. A filha do seu Ribamar tem prisão de ventre
e está engordando muito, o filho da dona Maria sente
uma queimação no estômago que parece úlcera.
E Júnior, o filhinho, que só tem três anos, vive dando
entrada no hospital por causa de asma.
Nós somos o que comemos. Assim como uma árvore
precisa de terra boa para crescer e dar frutos, gente
precisa de alimentos bons para ser feliz.
O filho da dona Maria e a filha do seu Ribamar não
veem que a comida fraca está sabotando sua felicidade.
E você, como é? Já parou pra pensar se a sua comida
está ajudando ou atrapalhando a sua vida?

Ela é assim gostosa de ler e de entender.

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