Humanidade começa a viver em saldo negativo com planeta nesta segunda

'Dia da sobrecarga' de recursos naturais da Terra chega mais cedo a cada ano.
Fonte: Organic-UFRJ

POR SÉRGIO MATSUURA
08/08/2016 


Fotos de queimadas na Amazônia no fim de novembro - Floresta Nacional do Tapajós - Divulgação/Erika Berenguer


RIO - A partir desta segunda-feira, a Humanidade entra no “cheque especial” com o planeta. O orçamento anual de recursos renováveis já foi todo consumido, praticamente cinco meses antes de o ano acabar. A data, batizada como Dia de Sobrecarga da Terra, é calculada desde 2000 pela Global Footprint Network e, desde então, chega cada vez mais cedo. Para Mathis Wackernagel, cofundador e diretor executivo da ONG, isso mostra que, apesar de algumas iniciativas ambientais, como o aumento da produção de energia limpa, o padrão de consumo não sustentável vem aumentando.

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— Tudo o que nós demandamos da natureza do dia 1º de janeiro até o dia 8 de agosto equivale ao que a Terra pode renovar ao longo de um ano. Estamos comendo o bolo rápido demais — diz Wackernagel. — Se a nossa demanda do planeta continuar maior do que a Terra pode renovar, vamos ter que dar algo em troca. Não sabemos exatamente o quê ou quando, mas está claro que estamos nos colocando cada vez mais em risco.

O cálculo considera a chamada “pegada ecológica”, que mede a quantidade em área de terra e água necessária para sustentar uma população humana — em termos de recursos renováveis consumidos e absorção dos rejeitos — em relação à capacidade da biosfera de se regenerar. E essa conta não fecha. Para a manutenção da população global, com os níveis atuais de consumo, seria necessário o equivalente a 1,6 planeta.

A emissão de carbono é o principal problema. De acordo com os cálculos, ela responde por cerca de 60% da pegada ecológica global. As mudanças climáticas, antes vistas como um fenômeno futuro, já estão em marcha. Relatório divulgado semana passada pela NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, na sigla em inglês) mostra que 2015 foi o ano mais quente da História, desde o início das medições, no fim do século XIX. Outra marca importante foi que, pela primeira vez, a temperatura média global ficou 1 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais.


EM DÉBITO COM A TERRA

POPULAÇÃO MUNDIAL CONSOME BENS NATURAIS MAIS CEDO A CADA ANO

Fonte: Global Footprint Network
Editoria de Arte

Para Wackernagel, a boa notícia é o Acordo Climático de Paris, concluído em dezembro do ano passado. Por mais que as medidas apresentadas sejam insuficientes para manter o aquecimento global abaixo dos 2 graus Celsius, o objetivo foi reconhecido pelos 175 países signatários, incluindo os dois maiores poluidores, EUA e China.

— Antes de Paris, manter o aquecimento em 2 graus Celsius era apenas uma ideia de alguns grupos, não um objetivo global — diz o ambientalista. — O trabalho agora é de conscientizar as pessoas. Nós vemos indicações, como o desaparecimentos das geleiras, mas não é suficiente. O turista pode visitá-las, isso não afeta a sua vida: ele volta para o hotel e janta normalmente.

Riquezas põem o Brasil em superávit

Como exemplo, Wackernagel cita o exemplo do estado americano da Califórnia, que convive com secas recorrentes, mas produz riquezas suficientes para importar recursos de outras regiões, o que torna o problema invisível para a população. No Brasil, a questão se tornou aparente com os programas de racionamento no fornecimento de água.

— São sintomas de que a saúde do planeta não vai bem — afirma Wackernagel. — Como um dos países mais ricos em recursos naturais como o Brasil viu grandes cidades com problemas de abastecimento? É algo que não poderíamos imaginar.




Engarrafamento na ponte Rio-Niterói - Pablo Jacob / Agência O Globo

Exatamente por causa das riquezas, o Brasil aparece bem no estudo. Enquanto, na média, o mundo está em déficit, o país tem superávit. Pelos cálculos, a biocapacidade per capita do brasileiro é de 9.1 hectares globais (unidade que mede a produção por hectare segundo a média de produtividade global) e o consumo, de 3.1. O saldo é de 6 hectares globais per capita, mas isso não reflete hábitos de consumo sustentáveis. Se todos os habitantes do planeta consumissem como os brasileiros, seria preciso 1,8 Terra, acima da média global.

— Bom seria se a gente consumisse menos de um planeta por ano — disse Leonardo Menezes, gerente de conteúdo do Museu do Amanhã, que promove eventos especiais sobre o Dia da Sobrecarga da Terra. — É um alerta de que o brasileiro vem aumentando o padrão de consumo. Não dá para tentar consumir como os americanos, que precisariam de 4,8 planetas.

Cada um pode contribuir com a redução da pegada ecológica. Evitar andar de carro ou dedicar um dia da semana a uma dieta vegetariana, por exemplo, já que a produção de carne é bastante poluente.

— Não é preciso uma mudança radical. O mais importante é diminuir a pegada ecológica aos poucos. Não é porque lançaram um novo modelo de celular que a pessoa precisa comprar, por exemplo — recomenda Menezes. — Mas também não adianta separar o lixo para reciclagem e ter quatro carros na garagem.

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